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sexta-feira, 31 de julho de 2026

ODISSÉIA: A Ligação de Homero com o Nordeste do Brasil

A história da música "Mulher Nova, Bonita e Carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor" envolve a fusão do repente nordestino com a MPB e um grande sucesso da televisão brasileira. E tem uma forte ligação com A Odisseia de Homero!!

A letra teria sido escrita em 1973.

Todo o seu primeiro trecho fala do amor de Helena (de Troia) e Menelau.

Origem Poética (Otacílio Batista) 

A letra nasceu como um poema de cordel escrito pelo poeta, cantador e repentista paraibano Otacílio Batista (1923–2003), criado na década de 1970.

Existem 2 registros históricos fundamentais sobre a origem e a circulação do texto:

1973 - Primeira gravação de repente: O versos do famoso mote "Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor" foram registrados pela primeira vez no álbum em vinil "Cantador, Verso e Viola – Violeiros do Pajeú", lançado pelo selo Passarela em 1973. Nesse disco, Otacílio Batista declama e improvisa as décimas ao lado do parceiro repentista Clodomiro Paes. 

1976 - Publicação em livro: A versão escrita consolidada do poema foi publicada no livro de poesias do próprio Otacílio em 1976. 

A poesia foi composta na forma tradicional de décimas (estrofes de 10 versos). 

O tema central é a força e o poder de sedução do universo feminino sobre grandes homens e líderes da história. Nas estrofes, Otacílio alude a figuras históricas e lendárias que se renderam ao encanto das mulheres: 

Menelau e Helena de Tróia (a Guerra de Tróia) (saiba mais abaixo).

Alexandre, o Grande e Roxana (o conquistador dominado pela paixão). 

Miguel de Cervantes (a poesia inspirada pelo amor). 

Lampião e Maria Bonita (o "rei do cangaço" dobrado pelo feitiço do amor). 

A Melodia de Zé Ramalho 

O cantor e compositor Zé Ramalho, paraibano, primo de Elba Ramalho, e admirador da tradição dos cantadores do Nordeste, tomou conhecimento dos versos de Otacílio e os musicou. Zé manteve a métrica do repente e construiu uma melodia marcante e épica, unindo elementos do folclore nordestino com arranjos modernos de MPB e pop-rock. 

A Gravação de Amelinha (1982) 

Embora composta com a intervenção de Zé Ramalho, a canção foi entregue à cantora cearense Amelinha. Lançada em 1982 no álbum homônimo, a interpretação potente e emotiva de Amelinha transformou a faixa em um divisor de águas na sua carreira. A saber, Amelinha e Zé Ramalho eram casados na época da gravação.

A gravação foi uma grande produção que uniu o peso da música regional nordestina ao requinte dos arranjos de estúdio da MPB dos anos 1980 e uma ORQUESTRA!!!

Local e Produção

Estúdios: A faixa foi gravada entre janeiro e fevereiro de 1982 nos Estúdios SIGLA, no Rio de Janeiro, lançada pela gravadora CBS. 

Produção Musical: O álbum foi assinado por Zé Ramalho (então marido de Amelinha) em parceria com o produtor Mauro Motta, que também foi produtor de outros artistas como Raul Seixas, Agnaldo Timóteo, Amelinha, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Claudia Telles, Jerry Adriani, Wanderléa, Turma do Balão Mágico, Fábio Júnior, Roberto Carlos, entre outros.

Zé Ramalho acompanhou de perto todo o conceito estético e sonoro do projeto. 

A Construção da Sonoridade: Base Pop + Nordestina + Orquestra!!

A faixa combina a rusticidade do repente com uma roupagem orquestral épica:

A Base Acústica e Étnica: O próprio Zé Ramalho assumiu o violão e a viola de 12 cordas. Para reforçar a cadência nordestina, a percussão contou com Zé Leal no triângulo e Zé Gomes no ganzá. 

Cozinha de MPB/Pop: A sustentação harmônica e rítmica foi gravada por músicos renomados: Arlindo (Pipiu) no violão, Chico Julien no baixo e Fernando Moura no piano elétrico.

Cordas e Metais Dramáticos: O grande diferencial da arranjagem foi o trabalho de Chiquinho de Moraes, responsável pelo arranjo de cordas e metais. A gravação contou com uma verdadeira orquestra de estúdio, com dezenas de violinos, violas, flautas, trompas, trombones e trompetes, com a participação de nomes como o trompetista Márcio Montarroyos.

O Impacto com Lampião e Maria Bonita 

No mesmo ano de 1982, a Rede Globo estreou a minissérie "Lampião e Maria Bonita" (a primeira minissérie produzida pela emissora). A canção foi escolhida como um dos temas principais da trama, especialmente associada à figura de Maria Bonita e ao relacionamento do casal de cangaceiros. 

A exposição diária no horário nobre fez com que a música estourasse em todo o Brasil, levando o disco de Amelinha ao topo das paradas de vendas e consagrando o poema de Otacílio Batista na cultura popular brasileira.

domingo, 31 de maio de 2026

TELA BRASIL: O Streaming do Audiovisual Brasileiro GRATUITO!!!

TELA BRASIL: O Streaming do Audiovisual Brasileiro GRATUITO!!!

A plataforma Tela Brasil, o serviço de streaming público e gratuito lançado pelo Governo Federal (desenvolvido pelo Ministério da Cultura em parceria com a Universidade Federal de Alagoas), estreou com um catálogo inicial de 555 obras audiovisuais brasileiras.

Como a lista completa é imensa e rotativa, englobando 139 longas-metragens, 267 curtas, 85 médias-metragens e 64 séries, o catálogo foi dividido por mostras temáticas. Abaixo estão os principais destaques, clássicos e produções premiadas que lideram o catálogo:

🎥 Filmes Históricos e Indicados ao Oscar

Uma das principais mostras da plataforma reúne dezenove produções que já representaram o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar:

  • O Que É Isso, Companheiro? (1997) – Dirigido por Bruno Barreto, baseado no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick.

  • O Menino e o Mundo (2013) – Aclamada animação de Alê Abreu que concorreu ao Oscar de Melhor Animação.

  • Lixo Extraordinário (2010) – Documentário indicado ao Oscar sobre o trabalho do artista plástico Vik Muniz no Jardim Gramacho.

  • O Sal da Terra (2014) – Documentário sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado.

  • Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – Obra-prima do Cinema Novo dirigida por Glauber Rocha.

  • Pra Quem Fica, Tchau (1971) – Comédia dramática dirigida por Reginaldo Faria.

  • O Cangaceiro (1953) – Clássico de Lima Barreto premiado no Festival de Cannes.

  • Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) – Adaptação icônica da obra de Jorge Amado dirigida por Bruno Barreto.

🎬 Cinema Contemporâneo e Grandes Sucessos

Produções marcantes das últimas décadas que se destacam pela força narrativa e apelo de público ou crítica:

  • Carandiru (2003) – Sucesso de Hector Babenco adaptado da obra de Drauzio Varella.

  • A Hora da Estrela (1985) – A premiada adaptação de Suzana Amaral para o romance de Clarice Lispector.

  • Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) – Premiado drama de estrada no sertão nordestino dirigido por Marcelo Gomes.

  • As Duas Irenes (2017) – Sensível drama do goiano Fábio Meira sobre segredos de família no interior do Brasil.

  • Divinas Divas (2016) – Documentário dirigido por Leandra Leal sobre a primeira geração de artistas travestis do Brasil nos anos 1960.

  • A Noite do Espantalho (1974) – Clássico musical nordestino dirigido por Sérgio Ricardo, com trilha e atuações de Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

🎞️ Produções Independentes e Curtas-Metragens

O catálogo traz títulos elogiados no circuito independente e em festivais de cinema nacionais e internacionais:

  • My Name is Now, Elza Soares – Documentário focado na trajetória e na força da cantora Elza Soares.

  • Inabitável (2020) – Curta-metragem premiado em Gramado que aborda a busca de uma mãe por sua filha trans desaparecida.

  • A Mulher de Luz Própria – Documentário sobre a trajetória pioneira da cineasta Helena Ignez.

  • O Mergulho

  • 40 Quadra

Como acessar: Todo o catálogo está disponível de forma gratuita. Para assistir, basta acessar o site oficial da plataforma utilizando as credenciais de sua conta unificada Gov.br.

Site: https://telabrasil.cultura.gov.br/

sábado, 16 de maio de 2026

VIDEOTEXTO: O Avô da Internet no Brasil!!!


Vou voltar no tempo para relembrar (ou descobrir) o Videotexto, uma tecnologia fascinante que transformou a cidade de São Paulo em um cenário quase de ficção científica nos anos 80, muito antes de a internet comercial sonhar em chegar ao Brasil. E eu fiz parte disso.

Imagine ligar a sua televisão, conectar um aparelho na linha telefônica e, de repente, ter acesso a notícias, extrato bancário, previsão do tempo e até um chat para conversar com outras pessoas. Parece a internet atual, mas estamos falando do ano de 1982.


O que era o Videotexto?

Lançado oficialmente apenas na cidade de São Paulo (SP) pela Telesp (a antiga estatal de telecomunicações do estado, que se transformou em Telefônica e depois na Vivo), o Videotexto era um sistema interativo que unia a televisão, a linha telefônica, um modem, um teclado e uma central de computadores.

Em uma época em que computadores pessoais eram um luxo raríssimo, o Videotexto transformava a TV em um terminal de dados. Visualmente, ele lembrava o Teletexto europeu, com telas de fundo preto, fontes pixeladas e gráficos em blocos coloridos (arte em ASCII/Teletexto), como na imagem acima.

Como funcionava na prática?

Para usar o sistema, o assinante precisava de um terminal de videotexto habilitado (alugado pela Telesp) que continha um modem e um teclado, e de um adaptador conectado à TV. Eu usava uma daquelas TVs com alça, pequenas (geralmente brancas) pra poder caber tudo numa escrivaninha.

  1. O usuário discava para a central da Telesp que tinha um número específico para o Videotexto: 148. O seu aparelho telefônico tinha que estar conectado ao modem e acoplado à TV e ao teclado. A linha conectava diretamente à central de computadores da Telesp. A partir dali, a tela preta com o menu principal do sistema (na imagem) era carregada, dando início à navegação interativa.

  2. O modem fazia aquele clássico ruído de conexão e você tinha que apertar o botão do modem quando ouvisse o som para que tudo se conectasse (linha, modem, teclado e tv).

  3. O sistema era limitado a APENAS 50 conexões por vez. Ou seja, em horários de pico, geralmente de madrugada por causa do preço, você passava minutos tentando "achar" uma vaga no sistema. Quando estava cheio, o número dava sinal de "ocupado".

  4. Uma interface baseada em menus numéricos aparecia na tela (ex: "Digite 1 para Notícias, 2 para Bancos").


O Pioneirismo de São Paulo

São Paulo foi o grande laboratório e o principal mercado dessa tecnologia no Brasil. Empresas e bancos perceberam o potencial da novidade imediatamente.

  • O primeiro "e-mail": cada usuário, ao alugar o sistema, criava um "nick", que servia para acessar tudo, incluindo um sistema de mensagens, onde um usuário podia mandar e receber mensagens deum  outro usuário, com textos grandes, num protótipo do que viria a ser o e-mail anos depois. Ao entrar no sistema, ele te avisava se havia mensagem ou não na sua "caixa de correio".

  • O primeiro Home Banking: Bancos como o Bradesco (com o Bradesco Instantâneo) e o Itaú criaram sistemas onde o cliente podia consultar o saldo e tirar extratos sem sair de casa. Para a época, isso era pura magia.

  • Informação em Tempo Real: Jornais como a Folha de S.Paulo e o Estadão mantinham "jornais eletrônicos" atualizados constantemente no sistema.

  • O "Tinder" dos anos 80: O sistema contava com salas de bate-papo e correio eletrônico, que viria ser o nosso e-mail, usado até hoje. O serviço Videopapo virou uma febre entre os jovens paulistanos de classe média-alta, gerando amizades e namoros virtuais (e reais, fui testemunha) décadas antes das redes sociais.

  • Os Encontros do Videotexto: bares, salões de festas e até casas particulares recebiam os Encontros do Videotexto, onde os convidados (que não sabiam como eram pois não havia foto digital na época), se encontravam, se conheciam e se falavam pessoalmente. Cada convidado recebia na entrada uma etiqueta colada na roupa com o seu "nick" (apelido em inglês), o nome que usava pra entrar no sistema. O "Nick" uma vez registrado, não podia ser alterado facilmente. Vários "nicks" se tornaram icônicos, alguns que permanecem até hoje.


O Declínio e o Legado

Apesar de revolucionário, o Videotexto era um serviço caro

A assinatura, o aluguel do terminal e, principalmente, o custo dos pulsos telefônicos (o telefone ficava ocupado enquanto você navegava, cobrando um valor por cada 3 minutos de uso) limitaram o sistema.

Muita gente (como eu) ficava esperando dar meia-noite para usar, pois, após a meia-noite, era cobrado apenas um pulso, até as 6 da manhã. Quantas madrugadas viradas no Videotexto...

Com a chegada dos computadores pessoais mais potentes nos anos 90 e, finalmente, a abertura da Internet comercial em 1995, o Videotexto perdeu o sentido. Ele foi sendo desativado gradativamente até sair de cena em definitivo no início dos anos 2000.

Curiosidade: O Videotexto brasileiro foi fortemente inspirado no sistema francês Minitel, que fez um sucesso estrondoso por lá e resistiu bravamente até 2012.

O Videotexto paulistano dos anos 80 prova que o desejo de hiperconectividade e interatividade não nasceu com os smartphones. Nós já queríamos o mundo na tela da nossa TV há mais de 40 years.

O avô da internet seria o Videotexto. Depois veio a BBS (Bulletin Board System) nos anos 90 e, por fim, a internet, no final dos anos 90 e início dos anos 2000, como a conhecemos hoje.


Texto parcialmente gerado pela IA Gemini, e imagem colorida pelo mesmo sistema. 

CANAL 100: Itaú e Cinemateca restauram e digitalizam acervo futebolístico!!!

Ainda me lembro de ir no Cinema e assistir aos curtas do Canal 100 antes do filme. Se o último foi em 1986, eu já tinha 14 anos de idade, e...