A história da música "Mulher Nova, Bonita e Carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor" envolve a fusão do repente nordestino com a MPB e um grande sucesso da televisão brasileira. E tem uma forte ligação com A Odisseia de Homero!!
A letra teria sido escrita em 1973.
Todo o seu primeiro trecho fala do amor de Helena (de Troia) e Menelau.
Origem Poética (Otacílio Batista)
A letra nasceu como um poema de cordel escrito pelo poeta, cantador e repentista paraibano Otacílio Batista (1923–2003), criado na década de 1970.
Existem 2 registros históricos fundamentais sobre a origem e a circulação do texto:
• 1973 - Primeira gravação de repente: O versos do famoso mote "Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor" foram registrados pela primeira vez no álbum em vinil "Cantador, Verso e Viola – Violeiros do Pajeú", lançado pelo selo Passarela em 1973. Nesse disco, Otacílio Batista declama e improvisa as décimas ao lado do parceiro repentista Clodomiro Paes.
• 1976 - Publicação em livro: A versão escrita consolidada do poema foi publicada no livro de poesias do próprio Otacílio em 1976.
A poesia foi composta na forma tradicional de décimas (estrofes de 10 versos).
O tema central é a força e o poder de sedução do universo feminino sobre grandes homens e líderes da história. Nas estrofes, Otacílio alude a figuras históricas e lendárias que se renderam ao encanto das mulheres:
• Menelau e Helena de Tróia (a Guerra de Tróia) (saiba mais abaixo).
• Alexandre, o Grande e Roxana (o conquistador dominado pela paixão).
• Miguel de Cervantes (a poesia inspirada pelo amor).
• Lampião e Maria Bonita (o "rei do cangaço" dobrado pelo feitiço do amor).
A Melodia de Zé Ramalho
O cantor e compositor Zé Ramalho, paraibano, primo de Elba Ramalho, e admirador da tradição dos cantadores do Nordeste, tomou conhecimento dos versos de Otacílio e os musicou. Zé manteve a métrica do repente e construiu uma melodia marcante e épica, unindo elementos do folclore nordestino com arranjos modernos de MPB e pop-rock.
A Gravação de Amelinha (1982)
Embora composta com a intervenção de Zé Ramalho, a canção foi entregue à cantora cearense Amelinha. Lançada em 1982 no álbum homônimo, a interpretação potente e emotiva de Amelinha transformou a faixa em um divisor de águas na sua carreira. A saber, Amelinha e Zé Ramalho eram casados na época da gravação.
A gravação foi uma grande produção que uniu o peso da música regional nordestina ao requinte dos arranjos de estúdio da MPB dos anos 1980 e uma ORQUESTRA!!!
Local e Produção
• Estúdios: A faixa foi gravada entre janeiro e fevereiro de 1982 nos Estúdios SIGLA, no Rio de Janeiro, lançada pela gravadora CBS.
• Produção Musical: O álbum foi assinado por Zé Ramalho (então marido de Amelinha) em parceria com o produtor Mauro Motta. Zé Ramalho acompanhou de perto todo o conceito estético e sonoro do projeto.
A Construção da Sonoridade: Base Pop + Nordestina + Orquestra!!
A faixa combina a rusticidade do repente com uma roupagem orquestral épica:
• A Base Acústica e Étnica: O próprio Zé Ramalho assumiu o violão e a viola de 12 cordas. Para reforçar a cadência nordestina, a percussão contou com Zé Leal no triângulo e Zé Gomes no ganzá.
• Cozinha de MPB/Pop: A sustentação harmônica e rítmica foi gravada por músicos renomados: Arlindo (Pipiu) no violão, Chico Julien no baixo e Fernando Moura no piano elétrico.
• Cordas e Metais Dramáticos: O grande diferencial da arranjagem foi o trabalho de Chiquinho de Moraes, responsável pelo arranjo de cordas e metais. A gravação contou com uma verdadeira orquestra de estúdio, com dezenas de violinos, violas, flautas, trompas, trombones e trompetes, com a participação de nomes como o trompetista Márcio Montarroyos.
O Impacto com Lampião e Maria Bonita
No mesmo ano de 1982, a Rede Globo estreou a minissérie "Lampião e Maria Bonita" (a primeira minissérie produzida pela emissora). A canção foi escolhida como um dos temas principais da trama, especialmente associada à figura de Maria Bonita e ao relacionamento do casal de cangaceiros.
A exposição diária no horário nobre fez com que a música estourasse em todo o Brasil, levando o disco de Amelinha ao topo das paradas de vendas e consagrando o poema de Otacílio Batista na cultura popular brasileira.
Ouça a música:
A relação entre a adaptação de "A Odisseia (2026)" e o casal Menelau e Helena de Tróia é fundamental para contextualizar a jornada de Odivseu (Ulisses), no mais novo filme de Christopher Nolan.
Embora a Odisseia foque no retorno para casa, o conflito que desencadeou tudo e as consequências da Guerra de Tróia gravitam diretamente em torno desses dois personagens.
O Estopim da Guerra e a Dívida de Odisseu
Para entender o papel de Menelau e Helena, é preciso voltar ao Juramento dos Suplicantes:
• A Origem: Quando Helena era a mulher mais cobiçada da Grécia, foi o próprio Odisseu quem sugeriu um pacto para evitar guerras entre os pretendentes. Todos juraram defender o homem escolhido caso Helena fosse raptada.
• O Conflito: Quando Helena foi para Tróia com Párida, Menelau (Rei de Esparta e marido de Helena) invocou esse juramento. Odisseu, obrigado a cumprir sua palavra, teve que abandonar sua esposa Penélope e o filho recém-nascido Telêmaco para lutar em Tróia por 10 anos.
A Ilusão do "Feliz Para Sempre" (A Visita de Telêmaco)
Na obra clássica que inspira o filme, Menelau e Helena desempenham um papel narrativo crucial nos primeiros livros (a Telemaquia):
• Em busca do pai: Telêmaco viaja até Esparta para perguntar a Menelau se ele sabe se Odisseu está vivo.
• O Retrato do Casal: Em Esparta, Telêmaco encontra Menelau e Helena reconciliados e vivendo em extrema riqueza. No entanto, há uma camada subterrânea de trauma: Helena usa drogas medicinais (nepente) para aliviar a dor e a culpa do passado, enquanto Menelau lamenta as perdas absurdas da guerra.
• Informação Vital: É Menelau quem confirma a Telêmaco que Odisseu continua vivo, retido na ilha da ninfа Calipso.
Menelau e Helena representam o custo da tragédia que tirou Odisseu de casa. Enquanto o conflito do casal gerou o caos da guerra, a jornada de Odisseu é a tentativa desesperada de reparar esse caos e retornar à normalidade.

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